terça-feira, março 10, 2009

A MINHA CIDADE


VELHAS PAPELARIAS E LIVRARIAS
De
CASTELO BRANCO
É costume ouvirmos dizer quando alguém ou alguma coisa desaparece ou se apaga, a seguinte expressão; “É a vida…”
Vem esta conversa, a propósito do eclipse de uma mão cheia de velhas papelarias e livrarias da nossa cidade nos ultimos trinta anos.

No final da década de setenta foi-se a mítica livraria e papelaria Elias Garcia, que estava instalada bem no centro da cidade, (ao lado do café Avis),
Na década de oitenta a Artes Alves, à aproximadamente três anos a Ramalho, à dois a Gráfica de S. José e recentemente uma das mais antigas da nossa cidade: a Semedo.
Porém o flagelo não termina aqui!… as poucas que ainda restam estão com a corda no pescoço, (salvo seja para os respectivos proprietários). Restam actualmente na nossa cidade as seguintes papelarias livrarias; “Central” situada na rua D. Dinis, “Narciso” na Avenida 1º de Maio (que raramente abre) “Nogueira” na Rua João Carlos Abrunhosa.
Fui visitar esta ultima, e conversei com a esposa do proprietário, (António Batista Nogueira) ali fiquei a conhecer, um pouco da história desta velha papelaria e livraria da nossa cidade.
A historia desta papelaria não é com certeza muito diferente de todas as outras!… Abriu portas em 1943 pelas mãos do senhor Nogueira, (que actualmente se encontra adoentado), sessenta e cinco anos após da sua abertura, ainda hoje se mantêm à frente do negocio.
O seu dia a dia pelo que tive oportunidade de ver… está praticamente reduzidas á venda de revistas de bordados e ponte cruz, e “curiosamente” ao diálogo com quem por ali passa!… é comum as pessoas ao passar pela porta desta velha papelaria, entrarem para dar dois dedos de conversação e perguntarem sobre o estado de saúde dos proprietários.
O prenúncio do fim aproxima-se para este pequeno tipo de estabelecimentos, declamarão alguns que é sinal dos tempos que passam… Até pode ser que assim seja, porém, estou convicto que vamos ter saudades destas velhas papelarias e livrarias.
O Albicastrense

domingo, março 08, 2009

AVISO N.º 22/2009

Na passada sexta feira no café onde normalmente vou beber o café após o almoço, foi-me chamada a atenção por um amigo, para um aviso publicado no jornal “Correio da Manhã“.
Após uma vista de olhos, verifiquei que o aviso tinha sido mandado publicar pela nossa autarquia, e dizia respeito ao:
Plano de Pormenor da Cruz do Montalvão Norte, que abrange uma área de intervenção aproximada de 25ha, situada a Sul de Cidade, entre a ex-en 18 e o parque Urbano.
Das pessoas que na altura estavam no café, nenhum conseguiu ler fosse o que fosse deste aviso!… pois as minúsculas letras em que o aviso foi publicada tornam praticamente impossível a sua leitura.
A nossa autarquia cumpriu o estipulado na lei, que a obriga à publicação deste tipo de avisos, porém a questão não pode deixar de ser colocada.
É caso para dizer; Cumpriu-se a lei!… mas atenção, que isto não e para se ler… se quiseres ler, compra uma lupa para ficares a saber o que lá está registado. Meus amigos se fosse desconfiado, estaria neste momento a pensar, que alguém se prepara para adormecer alguém.
Aos responsáveis pela publicação deste anuncio só posso desejar-lhes que sejam possuidores de muito boa visão, (ou ter olhos de falcão), pois se assim não for… duvido que alguma vez o consigam ler.
PS. A única forma que encontrei para ler este aviso foi digitaliza-lo, para depois poder lê-lo
O Albicastrense

sábado, março 07, 2009

Castelo Branco na História - XLVII

CASTELO BRANCO NA HISTÓRIA E NA ARTE
(Continuação)
A substituição da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, em 1937, não permitiu a execução de todas as obras projectadas.
Nesse ano foram colocadas no recinto de entrada quatro painéis de azulejos e ainda se assentaram mais dois em cada um dos anos de 1938 e 1939. Ficaram porem, dez painéis por revestir. Não há uniformidade nas cercaduras por não ter havido nos anos de 1938 e 1939, o cuidado de fornecer à fábrica os elementos necessários para evitar a desarmonia dos painéis encomendados com os que tinham assentes em 1937.
Não se chegou a suprimir a entrada indirecta do jardim, que dá acesso ao passadiço sobre a Rua de Bartolomeu da Costa. O portão dessa entrada esteve primitivamente ao meio do passadiço para vedar a passagem do jardim para a horta ajardinada e foi mudada para a Rua de Bartolomeu da Costa, pela vereação municipal de 1911, no intuito de dotar o jardim com uma entrada privativa independente da horta que se encontra hoje transformada em parque. Foi então mudado também o sentido do lanço de escada que estabelecia a comunicação do jardim com a horta fronteira e que passou a servir para o acesso ao passadiço pela rua publica. Com a construção da nova entrada directa do jardim tornou-se inútil a existência do acanhado recinto de entrada estabelecido em 1911 e que apenas serve actualmente de depósito de imundices, dando azo a justos reparos dos visitantes.
É imprescindível, portanto, a conclusão das obras projectadas em 1936, para a qual falta a execução das seguintes:
1º Eliminação da entrada indirecta do jardim pelo passadiço, por se haver tornado desnecessário:
2º Reconstituição do lanço de escada para o restabelecimento da comunicação com a antiga horta ajardinada actualmente transformada em parque moderno:
3º Substituição dos frisos de massa, que contornam os painéis de azulejos , por frisos de cantaria:
4º Revestimento das paredes do recinto de entrada, estabelecido em 1936, com mais dez painéis de azulejos artísticos:
5º Uniformização das cercaduras dos painéis de azulejos assentes e a colocar:
6º Banimento das laranjeiras que foram plantadas no recinto de entrada em 1941 e que afrontam as suas paredes apaineladas; e finalmente:
7º Instalação da iluminação eléctrica no jardim, sem prejuízo da sua estética nem da sua harmonia.
As cantarias do portão a suprimir poderiam ser colocadas no que estabelece a comunicação do parque com o bosque, em substituição das outras modernas e extremamente pobres que destoam da Porta de Roma e que ali se colocaram no lugar das primitivas por estas terem sido aplicadas na porta férrea do novo recinto de entrada do jardim.
A existência de painéis de azulejos nas paredes do recinto de entrada, não obstante despertar a curiosidade dos visitantes, animar o ambiente e valorizar o jardim, tem sido objecto de algumas criticas discordantes. Enfileiram no reduzido número de detractores os candidatos varões que desconhecem a exuberância e a beleza dos azulejos decorativos nos jardins similares do século XVIII, nomeadamente no do Palácio Nacional de Queluz e no do Marques de Fronteira em Lisboa. Há, todavia a contrapor a tais opiniões inconsistentes as dos críticos abalizados em cujo número se contou Conttinelli Telmo, o saudoso Arquitecto chefe da Exposição do Mundo Português realizada brilhantemente em Lisboa em 1940.
Convidado pelo autor do projecto a emitir um parecer, aquele técnico ilustre concordou plenamente com a decoração do recinto com azulejos artísticos, não tendo posto objecções ao conjunto das obras.
É de lamentar, portanto que a louvável e invulgar iniciativa do antigo vereador Joaquim Martins Bispo não tivesse continuadores. É digna de louvores a Câmara Municipal por ter promovido a realização de importantes obras de urbanização que, embora incompletas, já melhoraram notavelmente a fisionomia da cidade; tornar-se-ia merecedora dos maiores encómios e credora de um profundo reconhecimento de todos os munícipes se deliberassem valorizar o património artístico citadino, com a execução das obras complementares da nova entrada do portentoso Jardim Municipal.
PS . O texto é apresentado nesta página, tal qual foi escrito na época.
Publicado no antigo jornal "Beira Baixa " em 1952
Autor. Manuel Tavares dos Santos
O Albicastrense

quinta-feira, março 05, 2009

A MINHA CIDADE

LARGO DA SÉ
Após alguns comentários aqui deixados, resolvi sondar e dar uma vista de olhos no Largo da Sé, (também baptizado pela dupla Bigodes e Companhia como o novo Largo dos reformados), para tirar a limpo o que por ali se passa.
Perante o que tive a oportunidade ver, é caso para dizer que a montanha pariu uma ratice!… então não é que o nossa autarquia, resolveu tirar aquela “espécie” de arbustos que ali existia! e plantar lá amores perfeitos…
Pensarão os nossos representantes que pelo facto de ali colocarem uns amores perfeitos, o largo irá ter melhor aspecto!? Até pode ser… que as várias cores das flores ali plantadas, possam dar mais alegria a este pobre e triste largo, no entanto estou como o outro: “Pobre sapateiro remendão… que por mais que remendasse ficava sempre com os pés de fora“. 
Que me desculpem os responsáveis pela colocação dos amores perfeitos neste largo, (flores de que aliás gosto imenso), este remendo é apenas um deitar de areia para os olhos dos albicastrenses. O verdadeiro problema deste triste e pobre largo, chama-se: Burrice na escolha do projecto para o local. O tipo de largo ali “implantado” em substituição do bonito jardim que ali existia, e que os responsáveis das varias vereações da nossa autarquia deixaram degradar pouco a pouco, ficaria bem com certeza!… em qualquer átrio de cemitério, e nunca num dos largos mais bonitos da nossa cidade.
Curiosamente após alguns comentários aqui e ali, cheguei a acreditar que a nossa autarquia iria dar a mão a palmatória e alterar de uma vez por todas a jumentada que ali cometeu.
Santa Ingenuidade a minha!…………
O Albicastrense

quarta-feira, março 04, 2009

BIGODES E COMPANHIA - Entrevistas


QUINHENTOS POSTES DEPOIS
Bigodes e Companhia empenhados em cair nas boas graças do albicastrense, resolveram entrevistá-lo para celebrar a publicação do poste número 501.
Companhia para Bigodes.
-- Bigodes… ele anda á 500 postes a dar música á maralha, hoje vai receber o retorno para ficar a saber como elas molestam.
-- Companhia vai com calma… não vá ele mandar-te entrevistar alguma alma atormentada.
-- Olha… até aqui tem sido ele a enviar-nos a entrevistar torres, muralhas, defuntos e até gaiolas… chegou a vez dele saborear as nossas maluquices.
-- Não te exaltes homem !…
"Chegados ao local onde se cozinham os postes, os nossos patuscos amigos empunharam o gravador e toca a fazer perguntas".
-- Caro albicastrense… a dupla Bigodes e Companhia em homenagem aos 500 postes do nosso blog, resolveu fazer-te uma entrevista.
-- Meus amigos… é uma honra poder ser entrevistado por bonecos tão patuscos e sem graça.
Companhia para Bigodes.
"Bigodes… Ainda agora começamos, e já nos está a chamar-nos patuscos… Quem pensa ele que é? Calma Companhia!… Ele julga ser mais finório do que realmente é… vamos aguardar para lhe dar resposta".
-- Achegado albicastrense como nasceu esta ideia estapafúrdia de aleitar um blog?
-- Boa Companhia… eu não encontraria melhor expressão para irritar alguém. Olha… tudo começou quando um dia resolvi visitar o blog do meu amigo Joaquim Batista, (O Idanhense), e pensei para com os meus botões… que talvez fosse interessante criar um na nossa cidade.
-- Ajeitado albicastrense ainda te recordas do primeiro poste?
-- Estou a agourar problemas Companhia!.. Respondendo a tua pergunta: Foi um poste sobre o antigo parque da cidade, a que dei o titulo “Ao Parque da Minha Infância” e foi publicado no dia 5 de Setembro de 2005.
-- Mudando de conversa… dos 500 postes que escreveste, qual foi o mais gozo fazer?
-- Eu não escrevo Companhia… quando muito emparelho algumas palavras de forma a dar-lhe algum sentido. -- O que mais prazer me vai dar a fazer é o 999.
-- O 999... Mas o amigo albicastrense ainda só afixou nesta espécie de blog 500?
-- Companhia… o melhor é deixares ser o bigodes a fazer as perguntas não vá o diabo tentar-me. -- Olha será o 999, porque esse poste será sobre a tua exterminação Companhia.
-- Não precisa de ser agressivo homem… eu só estou a cumprir o meu papel de boneco patusco.
-- Já vi que ficaram ofendidos comigo por vos ter chamado “bonecos patuscos sem graça“. -- Peço desculpa se vos ofendi.
Bigodes para Companhia.
"Companhia… deixa-me fazer algumas perguntas, senão ainda entornas o caldo".
-- 500 postes depois qual é o balanço que fazes das más línguas em que tem andado metido?
-- Também tu Bigodes!… eu não encontraria melhor expressão para irritar alguém! Olha o balanço não é mau… mas podia ser melhor.
-- Pois podia… se fossemos nós a decidir aquilo que se devia publicar no blog.
-- Não percebi o que disseste tu Bigodes?
-- Nada!… Estava a pensar em voz alta… Qual o critério que o albicastrense veste para a colocação dos postes no nosso blog?
-- O critério da pesquisa e da procura… por vezes também utilizo o critério do faz de conta.
-- O critério do faz de conta!?
-- Sim Bigodes... Sento-me no sofá e faço de conta que estou a pensar, porém estou a tirar uma roncada.
Bigodes para Companhia.
"Está a dar-nos musica Companhia!… ele já vai ver como elas lhe mordem. Calma Bigodes… Olha que ele é rato manhoso".
-- Amistoso albicastrense… a dupla “Bigodes e Companhia” tem conhecimento de acusações feitas por vários visitadores do blog de ser um vira casacas, pois tão depressa está com o primeiro, como está contra o primeiro!... A pergunta por mais que nos custe… não pode deixar de ser colocada. -- Afinal de que lado está o albicastrense?
-- Queridíssima ex. dupla de patuscos! com amigos como vocês eu não preciso de inimigos para me aborrecerem os neurónios. -- A resposta á vossa pergunta é muito simples… estou sempre ao lado da minha cidade.
-- Companhia… o melhor é desatarraxarmo-nos para outras bandas, senão ainda deixamos de aparecer no blog do albicastrense, e aparecemos na secção obituária do jornal Reconquista.
Bigodes e Companhia

segunda-feira, março 02, 2009

A MINHA CIDADE

Zona histórica de Castelo Branco

Voltei hoje ao castelo, e qual não foi o meu espanto … quando ao passar pela rua D’Ega sinto um cheiro a urina!.. Tentei perceber de onde vinha tal cheirete!… e depressa me apercebi da existência de um rego de água com cheiro a mijo, que passa no lado esquerdo da rua para quem a desce.
Armado em Sherlock Holmes procurei o nascente de tal cheiro, (perdão… do rio de água com cheiro a mijo) subi a rua D’Ega até á Travessa da rua do Muro, local de onde vinha o respectivo rego de água com cheiro mijo. Continuei pela dita cuja até ao fim... e o rego continuava, (conforme as fotografias documentam), entro na rua do muro e depressa me apercebo da nascente do pestilento cheiro. Rente às paredes de um velho solar em ruínas, (de que hoje em dia só restam as paredes), e conhecido em tempos como a casa do China, está uma velha caixa de esgoto de onde sai esta pestilenta água, que depois desce até á rua dos Ferreiros.
Curiosamente a indiferença parece morar por aquelas bandas, pois tirando uma ou duas pessoas ninguém parece interessar-se por ter um rio malcheiroso á porta.
Duma coisa tenho a certeza, o dever de cidadania è cada vez mais, uma miragem… pois nada daquilo que se passa no castelo e em Castelo Branco, parece interessar aos albicastrenses de hoje.
Será que uma estranha doença parecida com a descrita por José Saramago no seu livro, “Ensaio sobre a cegueira” se apoderou da mente da grande maioria dos albicastrenses, e lhe roubou o direito á indignação!?

O albicastrense

PS. Passei hoje dia 4 de Março pelo local, para saber se ainda se mantinha a situação descrita por mim no dia dois. Felizmente o problema já estava resolvido, aos responsáveis o albicastrense agradece prometendo que irá ficar atento a situações futuras.

domingo, março 01, 2009

GIORGIO MARINI - I


O texto que vão ler é sobre Giorgio Marini, pintor italiano que um dia resolveu vir morrer a Castelo Branco. Não sei quem o escreveu, (pois não está assinado), nem quando foi escrito, nem como me veio parar as mãos! Porém, mais importante que saber quem foi o seu autor… interessa em meu entender dar a conhecer um pouco da vida deste italiano, que um belo dia resolveu meter pernas a caminho e vir acabar a sua vida em Castelo Branco. A publicação deste texto é uma homenagem do albicastrense, ao anónimo autor do trabalho sobre Giorgio Marini, anónimo que embora não tenha conhecido o pintor, resolveu também ele homenageá-lo com este pequeno texto que designou como: “Um esboço de uns sombreados”.

GIORGIO MARINI
(1836-1905)

Não pretendo ser biográfico o que escrevo, nem sequer é um traço de singelo perfil. Talvez apenas o esboço de uns sombreados, nele apresento o pintor italiano Giorgio Marini, nado em Florença no recuado ano de 1836. Viveu intensamente, a vida do seu pais num período glorioso em que a vida dava ganas ser vivida, e viajou febrilmente pela Europa. Interrompendo os seus estudos na Escola de Belas-Artes da terra nata, veio a Portugal, pela primeira vez, em data que não se conhece a visitou apenas Lisboa e Porto, onde acompanhou sua irmã, prima-dona de uma companhia de Opera. Cumprido o contrato, que Marini queria ver chegar ao final, apressadamente deviam ter feito as malas para regressar á pátria, onde acontecimentos importantíssimos se estavam desenrolando. Todo o italiano que se prezava e que vivia no estrangeiro voltava à península para, de qualquer modo, tomar parte na batalha de que resultou e edificação da Itália moderna. Estava-se em pleno Ressurgimento e é de crer que lhe fervia o sangue nas veias. Havia agora alegria nos corações das patriotas, a época das perseguições das prisões, dos desterros, dos exílios, das deportações, dos fuzilamentos estava chegando ao fim. Os imperais austríacos acabavam de ser cilindrados em Solferino.
Quando regressou a Florença verificou que havia as maiores esperanças numa próxima libertação total do Pais. Estrangeiros e absolutistas nacionais estavam, os primeiros em fuga e, os segundos, desesperados. Viam-se já por toda a parte as camisas vermelhas dos milicianos de José Garibaldi e espalhavam-se e liam-se com avidez as edições das Minhas Prisões de Sílvio Pélico. Por toda a parte, nos salões, como nos cafés ou nos teatros liam-se e declamavam-se com entusiasmo e calor nunca vistos os poemas do grande poeta nacional e extremo patriota que tanto padeceu às mãos dos polícias austríacos até à sua soltura de tenebrosa fortaleza de Spielberg.
Marini não escapou nem podia escapar a esse contagiante entusiasmo. Ele próprio revelou-se sempre, nos contactos que manteve com portugueses, um genuíno meridional, fogoso irrequieto, de sangue vulcânico, diabolicamente temperamental. Não negou, queremos acreditar… e, essa justiça lhe fazemos… o seu contributo à luta. Lutou, estudou e pintava sempre, voltou a frequentar as aulas da Escola de Belas-Artes dessa cidade museu que é Florença, escrínio da arte que é um convite permanente ao estudo. Não estudou só arte, pintura muito principalmente, cultivou-se largamente, os conhecimentos que revelava, não eram os dum simples auto-didacta, ou de um vago diletante. Este homem, que se evidenciou como um artista de mérito, era, na verdade de uma cultura assombrosa.
Viajou muito e deve ter percorrido toda a Europa. O seu espolio, que desapareceu, por muito que parece, em Castelo Branco, cidade onde nada desaparece, exibia colecção notável de cartas, autografadas, documentos vários, daguerreótipos e fotografias de cardeais, príncipes, sábios, artistas plásticos e músicos. Nas suas deambulações voltou a Portugal e por cá ficou. Não se sabe que lapso de tempo mediou entre as duas vindas ao Pais. Como inveterado viajante, percorreu o território de lés a lés, continente e ilhas. Gostou da terra Portuguesa e do nosso povo e cá permaneceu. Aqui envelheceu e cá morreu. Andou de terra em terra espalhando o seu talento, enriquecendo os outros com a sua cultura.
No Porto gozou da protecção do Conde de Monfalim que o hospedou generosamente no seu palácio. Pintou muito, pintou com cuidado e com mestria quando se encontrava em melhor posição material e amparado pelos seus generosos hospedeiros e mercenariamente quando, necessitado, prospectava o pão-nosso de cada dia. Encontrava-se em Évora já há muito, quando uns parentes de pessoas residentes em Castelo Branco o credenciaram para esta cidade e, por volta de 1902, aqui chegou o florentino. Faltava-lhe ainda conhecer a pátria de João de Roiz de Castelo Branco, de Amato e de Henriques de Paiva. Numa bela tarde desembarcou vindo de comboio ou de diligência e esta etapa, mal suponha (ou ele já adivinhava), foi a ultima na sua peregrinação europeia. Acolhido com cortesia começou logo a trabalhar e pintou dezenas de quadros que se espalharam por inúmeras terras da província da Beira Baixa. Retratos às dezenas. Encomendas sobravam-lhe. Na paz podre de Castelo Branco de 1902, de vida sorna e tristonha, o folgazão Giorgio Marini, já entrado na casa dos 60, mas suando euforia italiana por todos os poros, foi, com a sua numerosa roda, um caso de alegria. Em 1903 adoeceu e deu entrada no hospital. Não perdeu a boa disposição de sempre e os amigos, nesse tempo ainda havia amigos, não o largavam e a expensas suas ali se manteve dois anos. Nesses dois longos anos, em que disfarçou o sofrimento com estoicismo, trabalhou afinamento mesmo quando as suas mãos doridas e torcidas pela gota, mal empunhavam a paleta e o pincel. Do seu quarto, de todo o hospital, fez um atelier frequentado por doentes e sãos. A portaria da Misericórdia era franqueada por torrencial romaria diurna e nocturna. A devoção e a arte podem por vezes fazer tábua rasa dos compromissos. A rigidez de cumprimentos podia ser atentatória da arte e da devoção por ela.
Giorgio Marini só estava desacompanhado quando dormia e nem mesmo assim, pois este filho de Florença devia sonhar muito em coisas belas. Bastava que sonhasse com a sua citá, com os seus entes queridos, com os amigos que lhe apareciam de novo, consigo falando sobre a ponte velha ou á sombra da catedral. Para o verem pintar, para o ouvirem contar maravilhas da sua Itália vecchia, agora renovada, peripécias das suas viagens, episódios picarescos, anedotas picantes, ditas cheias de chiste e de muito sal ou então para o ouvirem tocar viola e cantar cançonetas alegres ou de calor napolitano, os amigos não arredavam pé. Outras vezes, nos períodos de alta, era ele que saia do hospital e cirandava pelas casas dos amigos.
E a festa era idêntica. Se no Porto circulava de cálice em cálice, então o caso era falado, pois Marini, italiano e artista, o que é a mesma coisa, não escondia a sua paixão por esse sol engarrafado das encostas durienses. Se pintava ou esculpia, na música não desconhecia qualquer instrumento. Enchia-se a Igreja da Misericórdia, se fosse anunciado um serviço religioso em que ele tocava órgão e cantava. Contou-me bastante da sua vida José Batista Figueira, que conheci já velho e que em novo, conheceu Marini. Assistiu-lhe desveladamente no hospital como enfermeiro e o velho artista votou-lhe, como gratidão, um grande afecto. Quase quarenta anos depois da sua morte, José Figueira ria até às lágrimas recordando as inúmeras pilharias do italiano ditas em português com forte acento italiano. Notei sem espanto, que muitas dessas lágrimas eram também de mágoa e de saudade.
Corria o ano de 1905 e em 8 de Julho finou-se repousando sob o manto da terra albicastrense. No conservatório do registo civil de Castelo Branco, no livro de registos de óbitos do ano de 1905, a folha 23, (como salientei anteriormente), faleceu com 69 anos de idade, o súbito italiano Giorgio Marini, filho de Fernando Marini e de Theresa Franchezone.
(O texto está aqui escrito tal como o autor o escreveu)
Ps. Aos visitantes albicastrenses deste post, lançava aqui um desafio! … Gostaria de colocar nesta página o nome do autor do texto. Porém, tal só será possível com a colaboração de gente interessada em prestar homenagem, a quem prestou tributo a uma pessoa de quem só tinha ouvido falar.
As pistas para descobrir o autor do texto são as seguintes: O autor diz a determinada altura do texto, que falou com José Batista Figueira, (já velho) e que em novo teria assistido Marini… acrescentando de seguida o seguinte: ”40 anos depois ainda ria das pilharias do italiano”. Podemos concluir que o autor terá falado com José Figueira, cerca de 40 anos depois da morte de Marini, (1905) ou seja por volta de 1944. Ora podemos nós concluir, que o texto poderá ter sido escrito por essa altura? José Batista Figueira antigo enfermeiro no velho hospital albicastrense, já velho em 1940, deverá ter morrido alguns anos depois! Existirão descendentes seus na nossa cidade, a quem ele possa ter contado essas histórias? Terão eles conhecimento das conversas com o misterioso autor do texto?
Perguntas e interrogações sem resposta por agora, mas que espero poder vi a solucionar com a ajuda de alguns visitantes. Fico a aguardar ajuda dos visitantes… que a podem deixar na secção de comentários.

O Albicastrense

HERÓIS DE CARNE E OSSO - (II)

EM  ESPANHA, 3.912 PROFISSIONAIS DE  SAÚDE ESTÃO CONTAMINADOS. 23-03-2020 Oitenta e dois médicos e mais de oitenta enfermeiros estão ...