
O texto que vão ler é sobre Giorgio Marini, pintor italiano que um dia resolveu vir morrer a Castelo Branco. Não sei quem o escreveu, (pois não está assinado), nem quando foi escrito, nem como me veio parar as mãos! Porém, mais importante que saber quem foi o seu autor… interessa em meu entender dar a conhecer um pouco da vida deste italiano, que um belo dia resolveu meter pernas a caminho e vir acabar a sua vida em Castelo Branco. A publicação deste texto é uma homenagem do albicastrense, ao anónimo autor do trabalho sobre Giorgio Marini, anónimo que embora não tenha conhecido o pintor, resolveu também ele homenageá-lo com este pequeno texto que designou como: “Um esboço de uns sombreados”.
GIORGIO MARINI
(1836-1905)
Não pretendo ser biográfico o que escrevo, nem sequer é um traço de singelo perfil. Talvez apenas o esboço de uns sombreados, nele apresento o pintor italiano Giorgio Marini, nado em Florença no recuado ano de 1836. Viveu intensamente, a vida do seu pais num período glorioso em que a vida dava ganas ser vivida, e viajou febrilmente pela Europa. Interrompendo os seus estudos na Escola de Belas-Artes da terra nata, veio a Portugal, pela primeira vez, em data que não se conhece a visitou apenas Lisboa e Porto,
onde acompanhou sua irmã, prima-dona de uma companhia de Opera. Cumprido o contrato, que Marini queria ver chegar ao final, apressadamente deviam ter feito as malas para regressar á pátria, onde acontecimentos importantíssimos se estavam desenrolando. Todo o italiano que se prezava e que vivia no estrangeiro voltava à península para, de qualquer modo, tomar parte na batalha de que resultou e edificação da Itália moderna. Estava-se em pleno Ressurgimento e é de crer que lhe fervia o sangue nas veias. Havia agora alegria nos corações das patriotas, a época das perseguições das prisões, dos desterros, dos exílios, das deportações, dos fuzilamentos estava chegando ao fim. Os imperais austríacos acabavam de ser cilindrados em Solferino.
Quando regressou a Florença verificou que havia as maiores esperanças numa próxima libertação total do Pais. Estrangeiros e absolutistas nacionais estavam, os primeiros em fuga e, os segundos, desesperados. Viam-se já por toda a parte as camisas vermelhas dos milicianos de José Garibaldi e espalhavam-se e liam-se com avidez as edições das Minhas Prisões de Sílvio Pélico. Por toda a parte, nos salões, como nos cafés ou nos teatros liam-se e declamavam-se com entusiasmo e calor nunca vistos os poemas do grande poeta nacional e extremo patriota que tanto padeceu às mãos dos polícias austríacos até à sua soltura de tenebrosa fortaleza de Spielberg. Marini não escapou nem podia escapar a esse contagiante entusiasmo. Ele próprio revelou-se sempre, nos contactos que manteve com portugueses, um genuíno meridional, fogoso irrequieto, de sangue vulcânico, diabolicamente temperamental. Não negou, queremos acreditar… e, essa justiça lhe fazemos… o seu contributo à luta. Lutou, estudou e pintava sempre, voltou a frequentar as aulas da Escola de Belas-Artes dessa cidade museu que é Florença, escrínio da arte que é um convite permanente ao estudo. Não estudou só arte, pintura muito principalmente, cultivou-se largamente, os conhecimentos que revelava, não eram os dum simples auto-didacta, ou de um vago diletante. Este homem, que se evidenciou como um artista de mérito, era, na verdade de uma cultura assombrosa.
Viajou muito e deve ter percorrido toda a Europa. O seu espolio, que desapareceu, por muito que parece, em Castelo Branco, cidade onde nada desaparece, exibia colecção notável de cartas, autografadas, documentos vários, daguerreótipos e fotografias de cardeais, príncipes, sábios, artistas plásticos e músicos. Nas suas deambulações voltou a Portugal e por cá ficou. Não se sabe que lapso de tempo mediou entre as duas vindas ao Pais. Como inveterado viajante, percorreu o território de lés a lés, continente e ilhas. Gostou da terra Portuguesa e do nosso povo e cá permaneceu. Aqui envelheceu e cá morreu. Andou de terra em terra espalhando o seu talento, enriquecendo os outros com a sua cultura.
No Porto gozou da protecção do Conde de Monfalim que o hospedou generosamente no seu palácio. Pintou muito, pintou com cuidado e com mestria quando se encontrava em melhor posição material e amparado pelos seus generosos hospedeiros e mercenariamente quando, necessitado, prospectava o pão-nosso de cada dia. Encontrava-se em Évora já há muito, quando uns parentes de pessoas residentes em Castelo Branco o credenciaram para esta cidade e, por volta de 1902, aqui chegou o florentino. Faltava-lhe ainda conhecer a pátria de João de Roiz de Castelo Branco, de Amato e de Henriques de Paiva. Numa bela tarde desembarcou vindo de comboio ou de diligência e esta etapa, mal suponha (ou ele já adivinhava), foi a ultima na sua peregrinação europeia. Acolhido com cortesia começou logo a trabalhar e pintou dezenas de quadros que se espalharam por inúmeras terras da província da Beira Baixa. Retratos às dezenas. Encomendas sobravam-lhe. Na paz podre de Castelo Branco de 1902, de vida sorna e tristonha, o folgazão Giorgio Marini, já entrado na casa dos 60, mas suando euforia italiana por todos os poros, foi, com a sua numerosa roda, um caso de alegria. Em 1903 adoeceu e deu entrada no hospital. Não perdeu a boa disposição de sempre e os amigos, nesse tempo ainda havia amigos, não o largavam e a expensas suas ali se manteve dois anos. Nesses dois longos anos, em que disfarçou o sofrimento com estoicismo, trabalhou afinamento mesmo quando as suas mãos doridas e torcidas pela gota, mal empunhavam a paleta e o pincel. Do seu quarto, de todo o hospital, fez um atelier frequentado por doentes e sãos. A portaria da Misericórdia era franqueada por torrencial romaria diurna e nocturna. A devoção e a arte podem por vezes fazer tábua rasa dos compromissos. A rigidez de cumprimentos podia ser atentatória da arte e da devoção por ela.
Giorgio Marini só estava desacompanhado quando dormia e nem mesmo assim, pois este filho de Florença devia sonhar muito em coisas belas. Bastava que sonhasse com a sua citá, com os seus entes queridos, com os amigos que lhe apareciam de novo, consigo falando sobre a ponte velha ou á sombra da catedral. Para o verem pintar, para o ouvirem contar maravilhas da sua Itália vecchia, agora renovada, peripécias das suas viagens, episódios picarescos, anedotas picantes, ditas cheias de chiste e de muito sal ou então para o ouvirem tocar viola e cantar cançonetas alegres ou de calor napolitano, os amigos não arredavam pé. Outras vezes, nos períodos de alta, era ele que saia do hospital e cirandava pelas casas dos amigos. E a festa era idêntica. Se no Porto circulava de cálice em cálice, então o caso era falado, pois Marini, italiano e artista, o que é a mesma coisa, não escondia a sua paixão por esse sol engarrafado das encostas durienses. Se pintava ou esculpia, na música não desconhecia qualquer instrumento. Enchia-se a Igreja da Misericórdia, se fosse anunciado um serviço religioso em que ele tocava órgão e cantava. Contou-me bastante da sua vida José Batista Figueira, que conheci já velho e que em novo, conheceu Marini. Assistiu-lhe desveladamente no hospital como enfermeiro e o velho artista votou-lhe, como gratidão, um grande afecto. Quase quarenta anos depois da sua morte, José Figueira ria até às lágrimas recordando as inúmeras pilharias do italiano ditas em português com forte acento italiano. Notei sem espanto, que muitas dessas lágrimas eram também de mágoa e de saudade.
Corria o ano de 1905 e em 8 de Julho finou-se repousando sob o manto da terra albicastrense. No conservatório do registo civil de Castelo Branco, no livro de registos de óbitos do ano de 1905, a folha 23, (como salientei anteriormente), faleceu com 69 anos de idade, o súbito italiano Giorgio Marini, filho de Fernando Marini e de Theresa Franchezone.
(O texto está aqui escrito tal como o autor o escreveu)
Ps. Aos visitantes albicastrenses deste post, lançava aqui um desafio! … Gostaria de colocar nesta página o nome do autor do texto. Porém, tal só será possível com a colaboração de gente interessada em prestar homenagem, a quem prestou tributo a uma pessoa de quem só tinha ouvido falar.
As pistas para descobrir o autor do texto são as seguintes: O autor diz a determinada altura do texto, que falou com José Batista Figueira, (já velho) e que em novo teria assistido Marini… acrescentando de seguida o seguinte: ”40 anos depois ainda ria das pilharias do italiano”. Podemos concluir que o autor terá falado com José Figueira, cerca de 40 anos depois da morte de Marini, (1905) ou seja por volta de 1944. Ora podemos nós concluir, que o texto poderá ter sido escrito por essa altura? José Batista Figueira antigo enfermeiro no velho hospital albicastrense, já velho em 1940, deverá ter morrido alguns anos depois! Existirão descendentes seus na nossa cidade, a quem ele possa ter contado essas histórias? Terão eles conhecimento das conversas com o misterioso autor do texto?
Perguntas e interrogações sem resposta por agora, mas que espero poder vi a solucionar com a ajuda de alguns visitantes. Fico a aguardar ajuda dos visitantes… que a podem deixar na secção de comentários.
O Albicastrense