
Este albicastrense que conheceu muito bem Mário Cabarrão, não
podia deixar de aqui mencionar este triste acontecimento e, afirmar que a terra
albicastrense está hoje mais pobre com a partida deste velho homem. Em sua homenagem, aqui fica uma reportagem publicada pelo jornal Expresso, (deu várias) e algumas imagens captadas por mim na sua barbearia em 2013.
JORNAL EXPRESSO 2010.
“Barbeiro
há 80 anos gostava de cortar o cabelo a Cavaco Silva”.
RECONQUISTA- JOÃO CARREGA
"Mário Cabarrão é, aos 91 anos, o barbeiro mais antigo da cidade de Castelo
Branco e um dos mais experientes do país".
Chegámos à hora marcada e Mário Cabarrão, 91 anos, atendia mais um cliente naquela que é a barbearia mais antiga da cidade de Castelo Branco.
"Sou
barbeiro há mais de 80 anos", diz, enquanto avisa o senhor a quem
corta e apara o cabelo. - "Aqui já
moram poucos", diz. - "Pois,
é que toda a vida usei chapéu. Se calhar foi por isso que me caíram",
responde o homem, dos seus setenta anos, enquanto aguarda pelo OK do mestre
Mário para se levantar da cadeira. - "Está
como novo, meu amigo!", concluiu, para depois puxar por um cigarrito,
o segundo ou o terceiro do dia.
"Há
que fumar uma cigarrada para abrir o apetite à verdade", justifica.
No número 3 da Praça de D. José, junto ao
Banco de Portugal, Mário Amaro Cabarrão, mantém a boa disposição, e continua
fiel a um atendimento personalizado e educado.
A arte aprendeu-a aos 10 anos de idade,
com os mestres Manuel Pires Correia, Antero Correia e José Pires Correia.
"O meu pai levou-me lá e disse: se me
entregarem a pele fico contente", recorda, para depois explicar:
"nesse tempo havia muito respeito e não havia lugar a faltas de educação.
Éramos tratados como homens, agora é tudo uma garotada".
O que é certo é que esse dia terá mudado o
resto da vida de Mário Amaro Cabarrão. Permaneceu com os mestres até ir cumprir o
serviço militar e, em 1940, quando regressou optou por criar o seu próprio
negócio, que ainda hoje mantém.
"Pedi emprestados, ao Banco de
Portugal, três mil escudos. Uma fortuna, na altura, mas que paguei
religiosamente.
Estabeleci-me por conta própria e aqui estou", lembra. A primeira barbearia abriu-a na Rua J. A. Morão, mas depois mudou-se para o local onde hoje se encontra.
Estabeleci-me por conta própria e aqui estou", lembra. A primeira barbearia abriu-a na Rua J. A. Morão, mas depois mudou-se para o local onde hoje se encontra.
"Já cortei o cabelo a milhares de
pessoas. Hoje os clientes são menos, mas continua a vir gente de todas as
idades", diz.
Mário Amaro Cabarrão gosta de seriedade e
educação nos negócios e na vida. "Há indivíduos que chegam aqui cortam
o cabelo e dizem que vão buscar a carteira ao carro. Nunca mais os vejo. Isso é
estarem a brincar com o trabalho dos outros", sublinha.
No entender de Mário Amaro Cabarrão,
"é do trabalho que sai tudo. Eu, com
91 anos, tenho que continuar a trabalhar, porque a reforma que tenho vai toda
para os medicamentos".
Ainda no Estado Novo, o mestre Mário
Cabarrão quis começar a descontar para a Segurança Social da época, mas não
deixaram.
"Só
depois com o Marcelo Caetano isso foi possível. Daí que a reforma seja curta",
refere.
As barbearias são locais ímpares para se
conversar de tudo e mais alguma coisa. Mas Mário Cabarrão explica que "antes
do 25 de Abril a boquinha tinha que estar bem calada. Nessa altura não podíamos
trabalhar as horas que queríamos. Eu tinha duas filhas para criar e precisava
de trabalhar mais horas para lhes dar uma vida condigna. Cheguei a ter
perseguições!".
Com a queda do regime veio essa liberdade
e também a possibilidade de se falar abertamente de tudo e mais alguma coisa,
sobretudo de futebol.
O aparecimento de doenças como a SIDA não
mudaram o modo de trabalhar de Mário Amaro Cabarrão.
"Há
clientes que optam pelas lâminas, outros que preferem a navalha. Mas há um
remédio que não falha e não há males que aqui entrem. Passo sempre as navalhas
pela lixívia e pelo álcool. A receita foi-me dada pelo médico Elias Cravo, um
bom homem que foi meu cliente", justifica. A barbearia continua com a mesma traça
original.
Tal como os seus mestres Mário Amaro Cabarrão também ensinou a arte a muitos aprendizes. Hoje, aos 91 anos, gostava de cumprir o desejo de poder cortar o cabelo ao Presidente da República, Cavaco Silva.
Tal como os seus mestres Mário Amaro Cabarrão também ensinou a arte a muitos aprendizes. Hoje, aos 91 anos, gostava de cumprir o desejo de poder cortar o cabelo ao Presidente da República, Cavaco Silva.
"Sou amigo dele. Já o cumprimentei
três ou quatro vezes e quando venceu as eleições envie-lhe uma carta a
felicitá-lo por ter ganho a quatro lobos. Ele respondeu-me a agradecer. É um
grande homem!", concluiu.
O Albicastrense
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