De seguida entraram em exercício os novos vereadores, à excepção de Manuel da Fonseca Coutinho, a quem opunha embargos o licenciado Tomas de Carvalho da Silva, sem dúvida por motivos de inimizade pessoal. Apareceu mais tarde, como veremos, depois de um conflito com ele havido por causa da procissão do Corpus Christh, que na devida altura se contará, porque é interessante. Nos primeiros dias não parecia que a nova vereação estivesse muito disposta a trabalhar. Pelo menos não aparece coisa de jeito por ela feita. As sessões gastam-se em deliberações sem sombra de interesse; aparecem consignadas apenas coisas como estas:
Comentário do autor: Eram, como se vê, registados na Câmara os sinais pelos quais o gado de um proprietário se distinguia do dos outros, o que quer dizer que de então para cá não se aprendeu nada neste capítulo, antes se desaprendeu, pois que hoje ninguém regista as marcas de qualquer espécie de gado cá pelos nossos sítios.
Avultam nas actas os pesos e medidas aferidos, havendo quem aferisse tudo isto:
Comentário do autor: No dia 12 de Fevereiro há sessão da Câmara e são eleitos os deputados da décima, pela forma seguinte:
Escrivão Diogo Botelho;Tesoureiro dafreguezia de São Miguel manuel nunes vizeu; Domingos Mendes dafreguezia de Santa Maria”
Comentário do autor: E assim vai entretendo o tempo a Câmara nova, até que, mais senhora de si começou a fazer coisas de maior tomo.
Digna de ser conhecida é a sessão de 13 de Março. A acta ou termo da Câmara (e é a primeira vez que encontramos escrito Camara e não Camera como até aqui e como logo a seguir aparece de novo) resa assim:
Comentário do autor: Era um imposto sue generis criado por uma postura que esteve em vigor durante mais de dois séculos.
Era escrivão da Câmara Francisco Domingos Guedes, que nós conhecemos ainda muito bem, quando o imposto das cinco cabeças de pardais foi extinto. Nos últimos anos este imposto era difícil de pagar, porque os pardais tinham rareado; por isso o escrivão da Câmara fechava os olhos e deixava passar vários ardis com que, em parte ao menos, se iludia a postura.
Um desses ardis consistia em dividir a cabeça do pardal em duas partes, o que conseguiam separando as duas peças que formam o bico. O escrivão fingia não dar por isso; fazia de conta que cada parte do bico era uma cabeça e deixava passar.
Contou-me isto a tia Isabel, que foi minha patroa de estudante e que em nova fora criada do escrivão Guedes. Assistiu à cena muitas vezes e ajudava à prática do ardil. Mas nesta sessão, por muitos títulos notável, houve outras deliberações importantes, e a que tomou lodo a seguir à do imposto em cabeças de pardais ainda hoje é de aplicar e, mutatatis mutandis está incluía no código de postura em vigor. Veja-se pelo que, a seguir consta da acta:
Comentário do autor: Nesta sessão ainda há mais deliberações dignas de ser recordadas, mas têm de ser para outro número. Levar até ao fim a sessão de uma fez só seria abusar da paciência dos meus três leitores. “Arc.”








