terça-feira, maio 31, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (VI)

 O AMOR E A MORTE... NOS ANTIGOS REGISTOS PAROQUIAIS ALBICASTRENSES.
                                                              Por Manuel da Silva Castelo Branco
(Continuação)
Este dramático acontecimento provocou um verdadeiro estado de tensão na vila, pois o alcaide--mor D. António de Meneses tomou imediatamente as medidas indispensáveis param a captura e castigo dos implicados na morte de seu filho: fecharam-se as portas da fortaleza e cerca amuralhada; piquetes armados esquadrinhavam a terra e arredores, em busca dos assassinos; meteram-se na prisão algumas pessoas supostas cúmplices no atentado, entre elas os pais de Manuel da Fonseca Leitão e Simão da Silva de Almeida (o pai e a irmã deste ficaram detidos em casa). Durante três dias, os sinos das igrejas anunciam as cerimónias com o enterro das vítimas e a celebração de missas por suas almas.
De Lisboa veio logo uma numerosa alçada presidida pelo desembargador João Pinheiro, que convoca e ouve testemunhas, entre as quais o Dr. Francisco de Luna; liberta os julgados inocentes, como o Dr. João de Almeida e seus filhos; e acaba por confirmar as suspeitas quanto ao envolvimento no caso da nobre família do Fonseca Leitão. A alçada permanece bastante tempo na vila, recebendo ordenados elevados todos os seus membros. Assim: o juiz-presidente, Dr. João Pinheiro, vencia 4 cruzados por dia; o meirinho Francisco do Vale e o escrivão Sebastião do Vale, 500 réis cada um, além de mais 12 homens a 100 réis e tudo à custa da fazenda dos delinquentes.
Enfim, a sentença é pronunciada em Castelo Branco, a 14.12.1624, sendo condenados todos os culpados não só em pesadas penas pecuniárias destinadas às famílias das vítimas e despesas com o processo, mas também aos mais severos castigos, que são logo executados na praça da vila e por forma simbólica, pois não se haviam capturado os criminosos.
Assim: Manuel da Fonseca Leitão foi degolado em estátua ao pé do pelourinho e obrigado ao pagamento de 2000 cruzados a D. António de Meneses, 300000 réis aos irmãos de Manuel de Matos e 200000 réis para Bernardo da Silva; Francisco da Costa de Mendonça (seu tio, irmão da mãe) enforcado também em estátua e a igual indemnização; João Tavares, o «Castelhano» e Francisco Mayor, o «corta-focinhos», enforcados depois de decepadas as mãos no pelourinho; Francisco da Proença degradado até ao fim da vida para Angola, com baraço e pregão pelas ruas públicas; Manuel Vaz Alfaia e António Sanches em 5 anos de degredo para o Brasil.
Quanto aos pais e irmãos de Manuel da Fonseca Leitão, que haviam ficado presos, foram condenados sem 8 anos de degredo para o Brasil; a nunca mais viverem em Castelo Branco ou 10 léguas ao redor; e no pagamento de 4000, 200 e 100 cruzados, respetivamente, para os mesmos acima nomeados.
Como os restantes réus andavam fugidos, Antão da Fonseca teve de suportar todas as penas pecuniárias, avaliadas em cerca de 25000 cruzados. No cumprimento da sentença partiu para o Brasil, onde morreram sua mulher e dois filhos, ambos solteiros e sem geração: a infeliz D. Maria de Mendonça e João da Fonseca, a quem mataram em Pernambuco. De regresso a Portugal, viveu os últimos anos em Oledo, aqui falecendo a 15.3.1651. Manuel da Fonseca Leitão, seu filho herdeiro, esteve homiziado muitos anos em Castela e passando a Roma ali tomou ordens menores.
Por alvará de 20.4.1651, EI-Rei D. João IV deu-lhe licença para voltar ao reino, falecendo no Sabugal a 23.3.1673.
Entre finais de 1508 e começos de 1509, desenrolara-se também na antiga fortaleza albicastrense, mais precisamente no Paço dos Comendadores e Alcaides-mores, um outro acontecimento dramático, que vamos relatar por forma sucinta...
Era então alcaide-mor da vila D. João de Castelo Branco, 3° filho de D. Filipa de Ataíde e Nuno Vaz de Castelo Branco, vedor da azenda de D. Duarte e D. Afonso V, monteiro-mor e almirante do reino (12.4.1467), etc. Ora, não obstante a sua fama de galante poeta e esforçado cavaleiro, D. João foi muito infortunado no amor. Tinha casado com D. Leonor (filha de D. Isabel de Sousa e Afonso Vaz de Brito alcaide-mor de Souse e caçador-mor de D. Manuel I) e, havendo tomado posse de alcaidaria de Castelo Branco, (c. 1506), ali passou a residir com sua mulher e filha, nos paços da Alcáçova. Porém, D. Leonor apaixonou-se loucamente por Frei António Penalvo, seu capelão e beneficiado na igreja de Santa Maria do Castelo. Este, instigado pela amante, acometeu certa noite à traição o descuidado alcaide-mor, deixando-o estropiado e quase morto... Sobre o caso existem escassas memórias e delas apresentamos talvez a mais curiosa:
- D. Leonor de Sousa, mulher do alcaide-mor D. João de Castelo Branco, fazia-lhe adultério com um clérigo seu capelão e, para mais seguramente continuar no seu delito, ordenou que o dito clérigo o matasse. Para este fim o meteu em sua casa, que era no castelo da vila de Castelo Branco e, entrando D. João pela porta já de noite, lhe deu o dito clérigo com um alfange muitas feridas, deixando-o por morto; e, logo,  para desmentirem o delito, se pôs a dita D. Leonor e o clérigo sobre o corpo de D. João a fazer grande pranto contra quem o matara.
Acudiu o juiz de fora e fazendo buscar todas as pessoas, que estavam n casa, achou ao clérigo o alfange ensanguentado pelo que, compreendendo o delito e a origem dele, o prendeu e a D. Leonor. E dando conta a El-Rei, que estava em Évora, ele os mandou levar àquela cidade e logo mandou degolar a dita D. Leonor e o clérigo foi degradado para S. Tomé, onde seria morto por um parente de D. João, o qual não morreu das feridas mas ficou aleijado. Depois, correndo o tempo e desavindo-se com D. Manuel I, lhe pediu licença para passar a Castela e El-Rei lha deu e também para vender a alcaidaria-mor a D. Diogo de Meneses, claveiro da Ordem de Cristo; e D. João, pondo em efeito a sua determinação, se passou àquele reino onde morreu.(19)
Uma outra versão refere que D. Leonor de Sousa fora sentenciada « a morrer morte natural por justiça, sem lhe valer a grandeza do nascimento nem a valia dos seus muitos e ilustres parentes», (20) tendo sido degolada na praça de Évora, onde D. Manuel esteve continuadamente desde Outubro de 1508 a Setembro de 1509. Quanto a D. João sofrera profundos cutiladas numa mão, face e vista, de tal modo que quando Duarte de Armas passou por Castelo Branco, em meados de 1509, ainda ele se achava incapacitado para o exercício das suas funções. No entanto, acaba por restabelecer-se e suponho que o epíteto de o «Braço de Ferro», pelo qual é designado algumas vezes, não teria resultado apenas do seu grande valor mas talvez por utilizar qualquer aparelho metálico destinado a corrigir esse membro afetado pela brutal agressão do amante da mulher.
 Enfim, D. João retoma a sua atividade e, a 13.8.1513, parte de Lisboa na armada capitaneada por D. Jaime, duque de Bragança, que vai tomar Azamor no norte de África. De regresso ao reino (1514), D. Manuel concede-lhe a comenda dos Maninhos, em Castelo Branco, ficando também a usufruir a tença de 10000 réis por ano com o hábito de Cristo... O mesmo rei dá-lhe licença, em 5.6.1516, para trespassar uma tença de 30000 réis em sua única filha D. Maria de Castelo Branco, por virtude docasamento desta com Fernão Cabral, senhor de Azurara e alcaide-mor de Belmonte. Mas, pouco tempo depois, vende a alcaidaria-mor de Castelo Branco a D. Diogo de Meneses, claveiro da Ordem de Cristo e retira- -se para Castela, onde teve brigas sobre uma dama com «El Grand Capitan», D. Gonçalo Fernandez de Córdoba.
No «Cancioneiro Geral» de Garcia de Resende (1516), vemos uma só poesia da sua autoria dirigida a D. Guiomar de Meneses e nela declara: «Se vos eu vira, senhora, antes de ter o mal meu...»
(Continua)
                                               O Albicastrense

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