terça-feira, outubro 23, 2007

FONSECAS DE CASTELO BRANCO – V

“ OS RETRATOS DE FREI ROQUE DO ESPÍRITO SANTO

E FREI EGÍDIO DA APOSENTAÇÃO NO MUSEU

DE FRANCISCO TAVARES PROENÇA JÚNIOR”

Apresentada a família dos Fonsecas, faltava falar deste quadro.

Colocado sobre o altar da Capela dos Fonsecas (ou do Carneiro), acabou apeado do altar, tendo andado dezenas e dezenas de anos de um lado para o outro, sofrendo as vicissitudes inerentes às diversas e sucessivas instalações provisórias do museu albicastrense.
Com tal adversidade acabou por se destacar da moldura e andou enrolado e embrulhado durante bastante tempo.
Tais infortúnios só terminaram quando o Tenente-coronel Elias Gracia (anos trinta), assumiu a direcção do museu e ordenou que se guardasse a bom recato aquele rolo “tela”, salvando-o da perdição definitiva.
Enfim, adveio a ocasião de ser restituída à sua dignidade após beneficiação do mais essencial, de forma a poder incorporar-se em lugar de honra, numa sala do Museu.

Os juízos históricos, sobre os Fonsecas não são lisonjeiros para a memória dos irmãos, Diogo da Fonseca “corregedor do crime”, e Frei Bartolomeu da Fonseca “o inquisidor”.
Frei Roque e Frei Egídio
pelo contrário, merecerão bem esta bela homenagem, duas almas límpidas e puras, ungidas de santidade e dignas de um altar.
Note-se, em especial, que os retratos de frei Roque e de frei Egídio estão pintados no chão (os humanos não se pintam no céu) visto não serem canonizados, destinando-se o painel a uma Capela de propriedade particular e não pública.
Ao primeiro, foi conferido pela Santa Sé o titulo de Venerável, não sendo temerário admitir-se que haveria sido santificado se não caduca-se a Ordem dos Trinitários.
Frei Egídio não lhe ficava a traz, homem de modelar virtude, e superava-o decerto nos dotes de cultura e erudição, mas a sua actividade desdobrou-se entre a cátedra coimbrã e o gabinete de escritor, de filosofia e religião, sem alcançar a projecção nacional da obra social e politica do meio irmão mais velho.

O que diz José Lopes Dias sobre este quadro?

Desde logo a primeira impressão é aliciante, na harmonia geral da composição, no seu aparato egrégio, mas pujante de realismo, na perfeição do desenho e no colorido apaixonado dos tons magníficos, onde primam o azul, o vermelho e o branco, em que tudo, na verdade, inculca o valioso trabalho de séc. XVII.
Do lado esquerdo, frei Egídio, no hábito negro dos ermitãs de Santo Agostinho, a face calma e reflexiva de um mestre, abaixa a mão esquerda para um volumoso livro aberto sobre o pavimento, a sua obra de místico e filósofo, enquanto aponta ao céu com a mão direita, como se ensinasse a filosofia de Deus!...
E o semblante exprime efectivamente a mensagem de um intelectual e pensador de escolástica, de um místico ou de um asceta.
Frei Roque, na sua frente, veste o hábito branco dos Trinitários
, assinalado pela cruz de braços, a azul e a vermelho, a bela cabeça resplandecente de glórias e trabalhos sem fim, tisnada pelo duro sol africano, longas barbas de romeiro e missionário, exponde com os olhos e a alma postos no grupo celestial as mãos piedosas sobre a figura gentil e humilde de um cativo, ajoelhado a seus pés… O espírito voa-lhe para o céu, para as figuras da Trindade, enquanto as actividades práticas se multiplicam na remissão de milhares de cativos.
Entre as duas figuras principais, observa-se uma cena miniatural e alegórica, com frei Roque, presidindo á cabeceira de uma vasta mesa á romagem dos monges que vêm entregar as moedas mendigadas por toda a parte, ou vão partir com o dinheiro destinado aos resgates dos soldados nos presídios marroquinos.
Se a metade terrena do quadro contem dois retratos, duas figuras reais, a parte superior é de concepção puramente académica e celestial. A figura do Padre eterno veste-se de largas roupagens, em perfeito academismo, tendo uma das mãos sobre o globo do mundo e, a outra sobrevoada pela alva pompa do Espírito Santo; de escultórico torso nu, Jesus Cristo, realista e renascente, qual imagem humana, ostenta na mão esquerda, sobre o peito, a chaga da crucificação, adornando o corpo para a delicada imagem da Virgem.
A virgem exibe, na mão direita, as cadeias quebradas dos cativos, tendo no peito a cruz de Padroeira dos Trinitários e revendo-se no livro aberto das obras de frei Roque. Entre as figuras primaciais concorrem, em segundo plano coros de anjos ou serafins e emergem do caos bambinos de graça imanente e radiosa.
Deve destacar-se, no pormenor o expressionismo das mãos de orador e mestre em frei Egídio, de compaixão e tutela em frei Roque, majestáticas no Padre Eterno, dedicadas e poderosas em Jesus Cristo, enternecidas, as da Virgem; e mesmo os querubins rosados exibem mãozinhas papudas e tenras, como se o artista expressamente desejasse malbaratar o talento com que dominava uma das grandes dificuldades técnicas das artes plásticas.
Indubitavelmente primorosa, a obra é de relevante interesse, quer no seu valor estético, quer na representação histórica de dois personagens ilustres de Castelo Branco, sendo o nome do pintor ainda hoje desconhecido.

A minha coabitação com este quadro:

Tive oportunidade de ver este quadro pela primeira vez nos anos sessenta, quando o museu ainda morava nas suas instalações anteriores às actuais (edifício anexo ao governo civil), depois nos anos setenta, ao ir trabalhar para o museu Francisco Tavares Proença Júnior, ali o encontrei de novo, e lá se manteve exposto ao público até 1993, altura em que o edifício entrou em obras.
Quando da reabertura do museu em 1998, o nosso frei Roque e frei Egídio deixaram de ter pedestal no nosso museu, e o quadro regressou temporariamente à instituição onde estivera mais de cem anos (
Santa Casa de Misericórdia de Castelo Branco), tendo estado exposto ao cimo da escadaria principal desta instituição, entre 2001/06 (onde a foto que ilustra este post. foi obtida), sendo retirado e enviado de novo para o museu em virtude do seu mau estado em 2006.
Para terminar resta acrescentar, que este quadro se encontra actualmente na reserva do Museu Francisco Tavares Proença, não se sabendo para quando o seu restauro, assim como a sua exposição ao público.

PS. Os dados aqui apresentados são excertos retirados do livro: ” Os retratos de Frei Roque do Espírito Santo e de Frei Egídio da Aposentação, do Museu de Francisco Tavares Proença Júnior” da autoria de José Lopes Dias, editado em 1976.

Se estiver interessado em conhecer na íntegra os dados desta família, deve dirigir-se ao museu, pois é possível ainda ali existirem alguns exemplares à venda.

O Albicastrense

6 comentários:

  1. Anónimo17:48

    Que tal é que é a reserva do museu?O quadro não estará em perigo?Para quando o seu restauroe devolução a cidade?

    ResponderEliminar
  2. Caro anónimo
    Quanto ás condições, não podiam ser melhores.
    Em relação ao perigo está cem por cento seguro.
    No que diz respeito ao seu restauro as prospectivas parece-me escuras, para não dizer negras.
    Vamos ser optimistas e pensar que tal possa acontecer a curto prazo.

    ResponderEliminar
  3. Anónimo10:38

    O Morão manda pagar a conta do restauro?

    ResponderEliminar
  4. Anónimo18:28

    Seu estúpido o Morão aqui não manda nada!!!!!!!ah ah ah

    ResponderEliminar
  5. Anónimo21:55

    Quero felicitá-lo pela contribuição que está a dar pela divulgação da nossa Cidade.
    José Lopes

    ResponderEliminar
  6. Anónimo21:55

    Quero felicitá-lo pela contribuição que está a dar pela divulgação da nossa Cidade.
    José Lopes

    ResponderEliminar

DESCOBRINDO CASTELO BRANCO ANTIGO – (VI)

  Esta é uma imagem que irá deixar muita gente a coçar a cabeça e a interrogar-se, sobre o local onde este edifício tinha poiso na terra...