quarta-feira, junho 08, 2016

CADERNOS DE CULTURA - "MEDICINA NA BEIRA INTERIOR". (IX)

 AMOR E A MORTE... NOS ANTIGOS REGISTOS PAROQUIAIS ALBICASTRENSES.
                                                         Por Manuel da Silva Castelo Branco
 Um parto prodigioso".
(Continuação)
Assento 16 (S1 - 4M, fl. 92v) 
– Aos catorze dias de Julho do ano de 1716, nasceram duas crianças filhas de António Simão homem trabalhador e de sua mulher Maria Mendes Bragança, desta vila e freguesia. Ambas as ditas crianças com dois corpos da cintura para cima, distintos, com rosto cada uma de fêmea e bem a figurado, com dois corações, quatro braços e quatro pernas; e um só corpo da cinta para baixo, mas este tão inseparável e comum a ambas as crianças que é impossível por nenhuma arte poder separar-se um do outro, a via da urina é uma só e a outra via também uma. Às ditas crianças baptizei «sub conditione» por me parecer que o homem, que as baptizou nessa necessidade do parto, se perturbou vendo tal prodígio.
Foram-lhes postos os santos óleos a 21 do dito mês e, por ser caso não visto nestas partes, se fizeram vários retratos que se mandaram não só a cidades de Portugal mas ainda de Castela. E, por verdade, fiz este termo que assinei. O vig.° Frei António Gomes Assores.
Assento 17 (lbid.,fl.35v)
- A trinta e um de Julho de 1716, faleceram as duas crianças gémeas e prodigiosas. Foram sepultadas dentro da parede da envida de S. Brás (matriz que ora é desta vila), entre o altar do Nome de Deus e a porta travessa, por ordem do senhor bispo D. João de Mendonça. Sobreviveu uma à outra 8 ou 9 horas e o mesmo senhor bispo mandou nelas fazer anatomia, de que fiz este termo que assinei. O vig° Frei António Gomes Assores.
Comentário
Os Assentos 16 e 17, acima trasladados, dão-nos o relato bastante pormenorizado e sugestivo de um nascimento teratológico gemelar, ocorrido em Castelo Branco a 14.7.1716.A notícia deste acontecimento provocou a maior sensação quer na vila como em todos os locais de Portugal e Castela para onde se enviaram retratos do caso. As duas crianças do sexo feminino achavam-se unidas pelo abdómen, mas não podiam ser separadas por intervenção cirúrgica pois possuíam algumas funções vitais comuns... Vieram a falecer no dia 31 do mesmo mês, sobrevivendo uma delas à outra cerca de sete horas.
O bispo da Guarda, D. João de Mendonça, então residente no Paço de Castelo Branco, tomou logo algumas medidas indispensáveis... Assim, além de assegurar às crianças todos os cuidados dependentes do seu ministério, mandou-as observar por médicos e cirurgiões, que nelas acabariam por praticar também anatomia. Por sua ordem, foram sepultadas na ermida de S. Brás, em um nicho aberto no paramento interior da parede, sito do lado da Epístola, entre o arco da capela absidal e a porta lateral virada ao Poente. E, sobre ele, mandou colocar uma lápide de granito moldurada de 0,365x1,090m,com inscrição latina e escultura alusivas ao acontecimento. O letreiro, em tradução livre de António Rodrigues Cardoso, contém o seguinte:
- «Abdon e Sémen, que nasceram ligados, têm um só baixo ventre, sexo e fígado; têm vidas distintas e distintas também todas as demais coisas. Deram avida a Deus, pois, morrendo um, o outro morreu também, desfalecendo pouco a pouco durante sete horas. Juntos foram gerados, juntos viveram e juntos morreram. 1716». (25)
A escultura representa duas crianças ligadas pelo abdómen, tendo a da esquerda o braço direito entrelaçado como braço esquerdo da criança à direita. A capela de S. Brás foi demolida em1940, quando restavam dela apenas algumas paredes-mestras, encontrando-se a lápide atualmente no Museu Regional de Francisco Tavares Proença...Como já referimos, este parto prodigioso foi divulgado não só no país como fora dele, através dos meios de comunicação usados na época... Assim, a «Gazeta de Lisboa» no seu n°31 de 1.8.1716, inseria a seguinte notícia, remetida de Castelo Branco em 18 de Julho:
«Terça-feira, que se contaram 14 decorrente, do meio-dia para a uma hora, pariu nesta vila uma mulher chamada Maria Mendes Maia, casada com António Simão Bragança, homem jornaleiro, duas crianças pegadas uma em outra pelas cinturas, de maneira que ambas têm um só ventre e um só umbigo e ambas se servem pelas mesmas vias que podia ter uma só. Têm quatro pernas, mas duas alguma cousa mais curtas que as outras. A estatura de ambas é a de uma criança pequena. Vivem espertas e mamam bem e pelas palpitações parece ter cada uma seu coração. A sua forma se explica melhor nesta estampa».
O epílogo do caso vai publicado no n° 33 de 15 de Agosto do mesmo ano, sendo enviado de Castelo Branco a 1 do dito mês:- «As duas meninas, que nasceram unidas, foram baptizadas logo em nascendo por um homem que se achava na casa dos pais e, depois, por um clérigo «sub conditione» sem lhes dar nome, dizendo: 
«Criaturas de Deus, se não estais baptizadas  Ego vos baptizo in nomine Patris, etc.» 
Duraram somente vivas dezasseis dias: uma faleceu na quarta-feira desta semana das oito para as nove horas da noite; a outra na quinta-feira pelas sete da manhã. Fez-se anatomia nos seus corpos e não se descobriu mais novidade que a indivisão dos intestinos igualmente continuados no seu processo, sendo a origem diversa. Esta principiava no estômago, tendo cada uma esta oficina no seu próprio lugar.
O fígado era um só e começava no estômago de uma e se continuava ao da outra sem divisão; os duetos para as duas vias não tinham vício algum na sua conformação, nem o coração, bofe e peito, por se achar tudo na sua devida conformidade. Enfim, estas informações são preciosas para esclarecer e retificar mesmo alguns dados já fornecidos e, além do mais, permitem-nos apreciar também o resultado de uma autópsia feita nos começos do século XVIII. (26)
(Continua)
                                                  O Albicastrense

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